Havia solicitado um chá de cranberry, o seu preferido, mas o mesmo repousava intocável na mesa. Certamente já estava frio, e uma ou duas moscas já haviam pousado na borda de sua xícara.
Não bebericou nem um pouco da bebida, desde que a garçonete trouxera seu pedido com um sorriso forçado e ao mesmo tempo cansado.
Ele estava farto de tentar seguir em frente e não conseguir. Sempre alguém, ou alguma situação, o fazia reviver tudo mentalmente. E, o fazia enxergar que: independente dos anos que haviam se passado, tudo ainda estava vívido em sua mente e coração.
“Senhor, algum problema?”, perguntou um jovem sentado na mesa ao lado. O homem meneou a cabeça de modo negativo, mas não pode deixar de perceber os hematomas no rosto do rapaz, e a aparência semelhante entre eles.
Voltou a olhar para a janela, que disponibilizava uma vista sem nenhum obstáculo do trânsito lá fora. Passou um tempo contemplando o emaranhado de carros, mas por fim, dirigiu-se novamente o olhar em direção ao rapaz. E, foi impossível não se pergunta: O que havia acontecido com ele?.
Não demorou muito para os olhares se reencontrarem e o rapaz repetir sua pergunta: “Senhor, algum problema?”, o homem repetiu o movimento de negação com a cabeça.
Então, foi naquele momento que o homem percebeu que estava perdendo a sanidade. O garoto próximo a ele era ele mesmo mais novo. Os hematomas no rosto do rapaz, a roupa e o cabelo eram os mesmos de um dia que havia mudado tudo em sua vida. Dia este que tentava ao máximo esquecer.
Fechou os olhos e logo depois voltou a abri-los. Olhou em direção ao rapaz, mas como já imaginava, não havia ninguém ali.
Respirou fundo e se levantou, mas sem esquecer o pagamento, deixando-o próximo à xícara. Correu o mais rápido que podia para seu apartamento. Tendo chegado lá, começou a chorar e se lamentar. Passara tanto tempo escondendo quem fora, a forma como havia usado não apenas uma, mas várias pessoas.
Sentiu-se um completo idiota, pois poderia passar a vida toda guardando aquilo consigo, mas isso não diminuía sua culpa e seu sofrimento.
Por mais que lutasse, sabia que só havia uma forma de mudar o presente maçante do qual vinha vivendo, precisava pedir perdão, pois só assim conseguiria se livrar do passado. Das tantas coisas que fez em busca de atenção, de ser visto e entendido por alguém.
Mas esse era o problema, não sabia muito bem como fazer isso, só tinha algo em mente e não sabia se seria bem aceito.
“Muitos acabam se perdendo ao tentarem se encontrar. Outros destroem pessoas que costumam amar, tentando fazer com que elas o amem também”, disse ele para si mesmo. E pretendia dizer aquilo também para as pessoas que tanto amou e ama, mas que de alguma forma machucou ao agir tão imprudentemente.
Não sabia se aquelas palavras seriam suficientes. Não tinha ideia se pareceria mesmo arrependido aos olhos delas, mas tinha que tentar. Essa era sua explicação. Era seu ponto de vista, após tantos anos. Ouviria também os dos demais. E assim, pretendia colocar um ponto final no passado.

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